OKR e MBO: o que mudou em 40 anos de gestão por objetivos

Por Érico Rodrigues4 min de leitura
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MBO, a gestão por objetivos de Peter Drucker, combinava objetivos entre chefe e subordinado, revisava uma vez por ano e amarrava o resultado à remuneração. O OKR herdou a ideia central e mudou três coisas: virou trimestral, virou público para a empresa inteira, e se desligou do bônus. As três mudanças resolvem defeitos observados no MBO.

O que Drucker propôs em 1954?

A ideia era simples e era radical para a época: em vez de dizer às pessoas o que fazer, combinar com elas o resultado esperado e deixá-las decidir o caminho. Drucker chamou isso de gestão por objetivos, e o argumento era que o trabalhador do conhecimento sabe mais sobre o próprio trabalho que o chefe dele.

Essa parte continua inteira dentro do OKR e é a razão de o método funcionar. O que os quarenta anos seguintes mostraram foi que os detalhes de implementação do MBO produziam efeitos que ninguém queria.

MBOOKRPor que mudou
CicloAnualTrimestralUm ano é tempo demais para corrigir rota
VisibilidadeEntre chefe e subordinadoPúblico na empresaMeta invisível não alinha ninguém
RemuneraçãoLigado ao bônusDesligadoDinheiro na meta faz todo mundo prometer pouco
DireçãoDesdobrado de cimaTime escreve olhando o da empresaFatia distribuída não gera compromisso
AmbiçãoMeta a ser batidaMeta desconfortável em parte das escolasMeta segura não move nada
As três mudanças que definem o OKR

Por que desligar do bônus foi a mudança mais importante?

Porque é a única cujo efeito perverso é imediato e universal. No momento em que a meta decide quanto alguém recebe, a pessoa passa a negociar a meta em vez de negociar o resultado. É racional, é humano, e acontece em toda empresa.

O sintoma é fácil de reconhecer e costuma ser interpretado como sucesso: uma empresa em que praticamente todas as metas são batidas. Isso não significa que ela executa bem, significa que ela aprendeu a escrever metas que já ia bater de qualquer jeito.

Isso não quer dizer que o OKR não possa entrar na conversa de desempenho. Ele pode e deve ser insumo: como a pessoa lidou com o resultado-chave dela é informação legítima na avaliação. O que estraga é a fórmula, do tipo "bateu 80% do OKR, recebe 80% do bônus", porque é ela que muda o comportamento na hora de escrever.

Por que trimestral em vez de anual?

Porque uma meta anual só é corrigível em janeiro do ano seguinte. Se em maio ficou claro que a aposta estava errada, o MBO não oferecia mecanismo: a meta continuava lá, todo mundo sabia que não ia acontecer, e ninguém tinha permissão para mudar.

O trimestre é o intervalo em que uma empresa consegue mover um número de verdade e ainda assim errar quatro vezes por ano sem perder o ano inteiro. Não é um número mágico: é a menor unidade que aguenta uma aposta e a maior que ainda cabe na memória do time.

O MBO acabou?

Não, e vale dizer isso com clareza porque a literatura de OKR costuma tratá-lo como algo superado. Boa parte das empresas brasileiras de médio porte roda alguma forma de MBO hoje, com nomes diferentes: metas anuais por diretoria, acordo de resultados, programa de participação nos lucros atrelado a indicadores.

E há um caso em que o formato MBO é melhor: quando a meta precisa ser um compromisso firme com um terceiro, como um acordo com sócio, investidor ou contrato. Ali você quer previsibilidade, não ambição, e a régua de 0,7 é a coisa errada.

Perguntas frequentes

Dá para migrar de MBO para OKR sem perder o programa de bônus?
Dá, mantendo os dois separados de propósito. O programa de participação continua atrelado a dois ou três indicadores duros e previsíveis, tipicamente financeiros; o OKR passa a cuidar da direção do trimestre, sem dinheiro amarrado. É mais trabalho de comunicação que de método, e a frase que resolve é dizer em voz alta que o OKR não entra no cálculo.
O que o OKR herdou do MBO?
A ideia central e a mais valiosa: combinar o resultado esperado em vez de distribuir tarefa. E também a exigência de que a meta seja verificável, que era a inovação de Andy Grove sobre Drucker quando ele acrescentou os resultados-chave à formulação original.
MBO e avaliação por competências são a mesma coisa?
Não. MBO avalia o que a pessoa entregou; competência avalia como ela trabalha. Muitas empresas usam os dois na mesma avaliação, com pesos, e essa combinação costuma funcionar melhor que qualquer um sozinho. O OKR não substitui nenhum dos dois.
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