Escritório de advocacia: como transformar o planejamento estratégico em metas por área

Por Érico Rodrigues5 min de leitura
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Num escritório de advocacia, o indicador que mais engana é a hora trabalhada, e o que mais importa é a taxa de realização: quanto das horas trabalhadas vira honorário efetivamente recebido. Somada a prazo perdido, inadimplência e captação por área, ela explica por que escritórios com a mesma equipe têm resultados tão diferentes.

A diferença entre hora trabalhada e hora recebida

Um advogado que trabalha 160 horas no mês pode ter 120 apontadas como faturáveis, 90 efetivamente lançadas na fatura e 70 recebidas no prazo. Cada uma dessas quedas tem causa própria, e o escritório que só olha a primeira não sabe onde está perdendo.

EtapaPor que cai
Horas trabalhadasO ponto de partida
Horas apontadasApontamento tardio ou não feito. Perde-se o que não se lembra
Horas faturáveisTrabalho interno, prospecção e retrabalho não entram
Horas faturadasCorte na revisão da fatura, por acordo ou por relacionamento
Horas recebidasInadimplência e atraso
A cascata da hora, e onde ela vaza

A segunda linha é a mais barata de consertar e a mais ignorada. Apontamento feito no fim da semana perde entre 15% e 30% do que aconteceu, porque ninguém lembra da ligação de vinte minutos de terça. Apontamento no mesmo dia recupera isso sem trabalhar uma hora a mais.

Os indicadores de um escritório

IndicadorO que revelaQuem move
Taxa de realizaçãoQuanto do trabalho vira dinheiroSócio e advogado
Horas apontadas no mesmo diaSe o registro é confiávelCada advogado
Prazo perdidoRisco, não produtividadeContencioso e controle de prazo
Inadimplência de honoráriosTrabalho entregue não pagoFinanceiro e sócio
Captação por áreaSe o escritório cresce onde quer crescerSócios
Carteira por advogadoSobrecarga e risco de erroCoordenação

Por que o plano do sócio não chega na equipe

Porque ele costuma ser escrito em termos de posicionamento: crescer no direito empresarial, reduzir dependência do contencioso de massa, aumentar o ticket médio. São decisões corretas e não dizem ao advogado júnior o que fazer na terça-feira.

A tradução é por área, e ela é curta. Se o plano é crescer em empresarial, a meta da área é captação, e a do contencioso é liberar capacidade. Se o plano é elevar o ticket, a meta é taxa de realização, não volume de horas.

Metas que cabem num escritório sem virar cobrança de hora

  • Elevar a taxa de realização de 58% para 74% até 31/03
  • Elevar de 44% para 90% as horas apontadas no mesmo dia do trabalho
  • Reduzir a inadimplência de honorários acima de 60 dias de 14% para 5%
  • Elevar de 2 para 7 os clientes novos na área empresarial no trimestre
  • Reduzir de 4 para 0 os prazos perdidos no trimestre
  • Reduzir de 190 para 130 os processos ativos por advogado no contencioso

Os números são ilustrativos. Troque cada um pelo seu, e comece pela taxa de realização: ela quase sempre é menor do que os sócios estimam, e o número real é o que torna a conversa sobre apontamento possível sem parecer controle.

Prazo perdido merece tratamento à parte dos outros. Ele é indicador de risco, não de desempenho, e a meta correta é sempre zero. Colocá-lo na mesma conversa de produtividade cria o incentivo errado, porque quem está sobrecarregado esconde em vez de pedir ajuda.

O apontamento é o gargalo cultural

Todo escritório sabe que deveria apontar hora, e quase nenhum aponta bem. O motivo não é preguiça: é que o apontamento é feito por quem não vê benefício nele. O advogado registra, o sócio usa.

O que muda isso é o advogado ver o próprio número. Quando ele enxerga que apontou 96 horas e faturou 71, a conversa deixa de ser sobre controle e passa a ser sobre onde o trabalho dele está indo. Isso costuma resolver mais que qualquer cobrança.

Perguntas frequentes

Escritório com honorário fixo precisa apontar hora?
Precisa mais ainda, porque é a única forma de saber se o contrato é rentável. Sem apontamento, um cliente de honorário fixo que consome o triplo do previsto parece igual a outro que consome metade, e o escritório renova os dois nas mesmas condições.
Como medir taxa de realização?
Horas faturadas divididas por horas apontadas como faturáveis, por período e por advogado. O corte por cliente costuma ser ainda mais revelador: quase todo escritório tem dois ou três clientes cuja realização é muito baixa, e eles raramente são os que os sócios imaginam.
Meta de captação não vira pressão comercial no advogado?
Vira, se distribuída para todos. Captação costuma ser dos sócios e de quem tem perfil para isso, e não faz sentido cobrar de quem foi contratado para produzir técnica. Dividir a meta entre quem pode movê-la é o que a torna justa.
E escritório de 4 advogados?
A lista encolhe para dois números: taxa de realização e inadimplência. Os dois já costumam explicar a maior parte da diferença entre o que o escritório trabalha e o que ele recebe, e cabem numa conversa de quinze minutos por semana.

O que você acabou de ler tem nome

O que está descrito acima, escolher poucos números, dar um dono a cada um, dizer de onde ele sai e aonde precisa chegar, e olhar toda semana, é o método que se chama OKR. O nome importa pouco para quem toca o escritório no dia a dia. Ele importa se você quiser procurar mais material, ou explicar para os sócios por que três meses e não um ano.

E a resposta sobre o trimestre é prática, não teórica: três meses é longo o bastante para mover um número de verdade e curto o bastante para o time ainda lembrar o que combinou. Um ano vira carta de intenções; um mês vira lista de tarefas com nome bonito. Se o próximo passo for implantar, o cronograma de 30 dias tem o que fazer em cada semana.

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