Empresa de software: como alinhar produto, engenharia e comercial no mesmo trimestre

Por Érico Rodrigues5 min de leitura
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Numa empresa de software, produto quer construir, engenharia quer estabilidade e comercial quer vender o que ainda não existe. As três estão certas, e o que as alinha não é um roadmap combinado: é um indicador de negócio que as três movem juntas, tipicamente retenção de receita ou tempo até o primeiro valor entregue.

Por que as três áreas puxam diferente

ÁreaO que ela otimizaO custo para as outras
ProdutoFuncionalidade nova e diferenciaçãoDívida técnica e complexidade
EngenhariaEstabilidade e velocidade sustentávelMenos entrega visível no trimestre
ComercialFechar o mêsPromessa de recurso que não existe
Sucesso do clienteCliente usando e renovandoFila de pedidos que ninguém priorizou
Cada uma otimiza uma coisa legítima

Nenhuma das colunas do meio é errada. O problema é que, sem um número compartilhado, cada área tem razão dentro da própria lógica, e a discussão de prioridade vira uma disputa sobre qual lógica vale mais.

O indicador que une as três

Retenção de receita líquida é o melhor candidato porque ela só melhora se as três se moverem: produto precisa entregar o que faz o cliente ficar, engenharia precisa que funcione, e comercial precisa vender para quem tem perfil de ficar.

O segundo melhor é tempo até o primeiro valor entregue. Ele é operacional, mexe em produto (onboarding), em engenharia (setup) e em comercial (expectativa vendida), e move receita de forma comprovada porque cliente que demora a ver valor cancela.

O que NÃO funciona como número compartilhado é receita nova. Ela é do comercial na prática, e usá-la como meta comum faz produto e engenharia responderem por algo que não controlam no trimestre, o que gera cinismo em vez de alinhamento.

Como o OKR de engenharia vira roadmap, e como evitar

É o erro mais comum do setor e o mais fácil de cometer, porque a área já tem uma lista de entregas negociada. Transcrever essa lista para o formato de OKR produz um documento que descreve o que já ia acontecer.

Escrito como entregaEscrito como efeito
Lançar o módulo de relatóriosElevar de 18% para 40% os clientes que usam relatório toda semana
Migrar a arquiteturaReduzir o p95 de 1,9s para 400ms
Refatorar o módulo de cobrançaReduzir de 9 para 2 os incidentes mensais daquele módulo
Automatizar os testesReduzir o lead time de commit a produção de 6 dias para 4 horas
A tradução, item a item

Metas que produto, engenharia e comercial movem juntos

  • Elevar a retenção de receita líquida de 96% para 108% até 31/03
  • Reduzir o tempo até o primeiro valor entregue de 21 para 7 dias
  • Elevar de 31% para 55% os testes gratuitos que viram assinatura
  • Reduzir o lead time de commit até produção de 6 dias para 4 horas
  • Reduzir de 62% para 15% os incidentes descobertos pelo cliente antes da equipe
  • Elevar de 18% para 40% os clientes que usam o recurso lançado no trimestre passado

Os números são ilustrativos. Troque cada um pelo seu, e desconfie de comparar com referência de mercado: retenção e lead time dependem tanto do segmento e do estágio que a régua de fora orienta mal. O que importa é a sua própria curva.

O último merece atenção especial numa empresa de software. Ele mede se o que foi construído está sendo usado, que é a única prova de que o roadmap está certo. Sem ele, a empresa entrega funcionalidade e nunca descobre quais foram desperdício.

Perguntas frequentes

Produto e engenharia devem ter OKRs separados?
Quando são times distintos com autonomia, sim, e ambos apontando para o mesmo objetivo. O que não funciona é produto ter meta de entrega e engenharia meta de estabilidade sem nada em comum: aí a discussão de prioridade acontece toda semana e sem critério.
Como incluir sucesso do cliente?
Ele costuma ser o dono natural do número compartilhado, porque enxerga o cliente do começo ao fim. Dar a ele a propriedade de retenção, com produto e engenharia contribuindo, resolve a queixa mais comum do setor, que é a fila de pedidos de cliente sem priorização.
E o trabalho não planejado, incidente e suporte?
Ele continua acontecendo e não precisa estar em OKR nenhum. O que ajuda é medir quanto da capacidade consome: se 70% do trimestre foi incidente, escrever quatro resultados-chave ambiciosos é ficção, e o número torna essa conversa possível sem virar acusação.
Empresa de software com 12 pessoas precisa disso?
Precisa de um objetivo e três resultados-chave para a empresa inteira, não de OKR por área. Com doze pessoas não existem três áreas de verdade, e criar três OKRs produz documentos onde deveria haver conversa.

Você já sabe o nome disto, e talvez com má vontade

O que está descrito acima, escolher poucos números, dar um dono a cada um, dizer de onde ele sai e aonde precisa chegar, e olhar toda semana, é o método que se chama OKR. O nome importa pouco para quem toca a empresa no dia a dia. Ele importa se você quiser procurar mais material, ou explicar para o board por que três meses e não um ano.

E a resposta sobre o trimestre é prática, não teórica: três meses é longo o bastante para mover um número de verdade e curto o bastante para o time ainda lembrar o que combinou. Um ano vira carta de intenções; um mês vira lista de tarefas com nome bonito. Se o próximo passo for implantar, o cronograma de 30 dias tem o que fazer em cada semana.

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